SUELI CARNEIRO – FILÓSOFA E ATIVISTA DO MOVIMENTO NEGRO

SUELI CARNEIRO - FILÓSOFA E ATIVISTA DO MOVIMENTO NEGRO

Sueli Carneiro é  filósofa, escritora e ativista antirracismo do movimento social negro brasileiro. Doutora pela USP, é fundadora e atual diretora do Geledés — Instituto da Mulher Negra e considerada uma das principais autoras do feminismo negro no Brasil.

Como começou a sua militância e luta contra a discriminação?

Sueli Carneiro– A experiência de discriminação racial é vivida por toda pessoa negra, já nos primeiros anos de vida. Entrar na escola foi, pra mim, um momento em que essa questão se manifestou de maneira bastante dolorosa. Em diversos estudos sobre as questões do negro e a educação, fica evidente que geralmente é na escola que ocorrem as primeiras experiências danosas que as crianças negras têm com o racismo e a discriminação, e comigo isso não foi diferente. Por outro lado, meus pais sempre tiveram muita consciência racial e nos alertavam sobre o que iríamos enfrentar, ensinando como encontrar maneiras de nos defender. Cresci com uma relativa consciência da discriminação racial, além das experiências concretas que foram se acumulando ao longo da vida.

Mas eu sempre digo que a consciência racial individual é uma etapa dessa nossa jornada e o tornar-se um ativista é um outro momento, um outro processo. Ele tem relação com a compreensão de o combate ao racismo é uma pauta política e existem pessoas que, desde momentos anteriores a nós, vêm enfrentando essa luta na esfera pública e no embate político com os poderes instituídos. No momento em que eu fui para a universidade me dei conta de que, para além da minha consciência racial, haviam grupos, como o movimento negro e o movimento das mulheres. Eles transformaram essa consciência individual em estratégias de luta, pautas de reivindicação.

Da mesma maneira, a experiência da violência de gênero, experimentada por mim também na infância, foi determinante para o desenvolvimento de uma consciência feminista. A violência doméstica era uma experiência muito constante no cotidiano de mulheres das comunidades periféricas onde eu cresci, e isso desenvolveu em mim uma indignação muito grande em relação a essa supremacia masculina, que se efetivava no espancamento das mulheres. Na universidade, entrei em contato com o movimento feminista e percebi também que isso é uma agenda política, um fenômeno que as mulheres haviam politizado, trazido para a esfera pública como uma questão a ser combatida, ideologicamente e como política pública de combate às desigualdades de gênero existentes na sociedade brasileira.

Nesse momento, passei a acompanhar as ações realizadas por esses dois movimentos, e quando eu vi Lélia Gonzalez falando pela primeira vez  em um seminário no começo da década de 1980, percebi que pensar em uma possibilidade de ação política em torno das questões de raça e de gênero atendia totalmente as inquietações e a indignação que eu sentia. Foi um caminho sem volta.

O feminismo negro é pensado para lidar com a dupla opressão enfrentada pelas mulheres negras, que manifesta-se pela somatória do racismo e o machismo. Quais são suas características?

Sueli Carneiro – A combinação perversa de racismo, sexismo e subalternidade de classe social produz uma situação de confinamento, de asfixia social para as mulheres negras, destinando-as aos patamares inferiores da hierarquia social. É exatamente contra isso que emergem organizações de mulheres negras de norte a sul do Brasil, com protagonismo ao redor da ideia de um feminismo negro.

O feminismo negro denuncia a desigualdade existente entre mulheres negras e brancas, e os privilégios que a brancura oferece. Mesmo que as mulheres brancas estejam submetidas ao domínio patriarcal, ainda assim, elas têm vantagens comparativas em relação às negras, por conta do benefício arbitrário que a brancura tem como parâmetro estético privilegiado do ser mulher.

Esse feminismo vem não apenas para apontar estas desigualdades, como para reivindicar políticas públicas compensatórias que possam reverter esse quadro de desigualdade e ofertar igualdade na competição entre mulheres e negros na sociedade brasileira. É um feminismo que também se arvora portador de um novo pacto civilizatório, em que seja possível destituir as hierarquias e os privilégios que racismo e sexismo produzem na sociedade brasileira e outras, ao custo da opressão e da subalternização de grupos étnico-raciais e das mulheres.

Em sua opinião, quais políticas públicas poderiam contribuir para a redução das desigualdades raciais e de gênero?

Sueli Carneiro – Considerando que em qualquer dimensão da sociedade brasileira, você encontra desvantagens e desigualdades determinadas tanto em processos históricos como pela prevalência, um princípio que tem sido exaustivamente reivindicado é a adoção de políticas de ação afirmativa em todas as dimensões sociais. A política de cotas nas universidades é um exemplo disso, e existem diversos outros mecanismos que poderiam ampliar a igualdade: um exemplo seria a legislação convidar fornecedores privados e empresas públicas a adotar políticas de diversidade como critérios para poderem atender ao Governo.

Temos também questões que demandam um maior envolvimento da sociedade, exigem que os brasileiros reconquistem e recuperem sua capacidade de indignação diante de práticas absolutamente bárbaras, como o genocídio de jovens negros no Brasil. São números que impactariam e envergonhariam qualquer sociedade – que não a nossa – e que nos coloca em um patamar vergonhoso em termos de civilização. Isso depende primeiro da indignação da maioria de nós, de considerar que é inaceitável que práticas desse tipo ocorram.

Como você essa nova valorização do feminismo, liderada sobretudo por mulheres jovens?

Sueli Carneiro – É o maior presente e o maior reconhecimento que a minha geração de feministas poderia receber. É um momento quase de euforia para nós, velhas feministas, assistir esse emergente protagonismo das jovens feministas. Por muito tempo, em nossos encontros olhávamos para trás e não havia ninguém para assumir o bastão que tínhamos para transferir. achávamos que havíamos fracassado nessa missão de convencer as mulheres jovens a se envolver com isso, porque sempre houve um esforço do machismo em ridicularizar e estigmatizar o feminismo. E esse esforço foi muito bem-sucedido, ao ponto de chegarmos a ter gerações que diziam “nós somos femininas, não feministas”.

O universo está nos dizendo, por essas meninas, que tudo valeu a pena. Elas estão prontas para seguir adiante, nos carregando com elas em todas as suas lutas no futuro. Eu me sinto extremamente grata a todas as elas por, de alguma maneira, estarem dizendo para mim e para toda a minha geração que valeu a pena.

*Publicado originalmente no site da Fundação Tide Setubal

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