MUNIZ SODRÉ: RAÇA É SEMPRE O OUTRO

MUNIZ SODRÉ: RAÇA É SEMPRE O OUTRO

Cada vez mais, ressoam aqui e ali vozes de espanto com a multiplicação de episódios racistas em universidades brasileiras. O espanto tem muito de justo e de ingênuo. Justo, porque parte do suposto de que o preconceito abertamente “racial” estaria diluindo-se no interior de um tipo de racionalidade política e social articulada à globalização e à financeirização do capital. Nessa lógica emergente, o sistema de dominação do “outro” (que pôde caracterizar, no passado, mão de obra barata) não mais se apoia no conceito biológico de raça. Não há genótipos radicalmente diferentes, como bem se sabe, logo, não há raças, nem a cor da pele essencializa a diversidade humana.

Mas o espanto é também ingênuo, porque supõe que essa entidade abstrata denominada universidade saiba disso tudo. Ou melhor, pode até saber muito em determinados espaços concretos, mas dificilmente sente como corpo coletivo. No tocante à aceitação sincera do “outro”, é mais importante sentir do que saber. O vazio do sensível torna inócuo o conhecimento — cerebral, erudito, qualquer que seja o nome — da evidência objetiva e inibe um posicionamento prático-teórico que contorne a tara monocausal de tudo explicar por relações de classe social e que encare a “relação racial” como um material histórico, isto é, como um anacronismo escravagista a ser ultrapassado.

Sim, não existe raça, mas existe a relação racial.

O que faz essa relação? Para começar, mantém as supostas essências “homem negro” ou “homem branco” como marcações operativas de uma lógica de domínio, dentro de um paradigma étnico em que a pele clara conota primazia existencial. Num contexto de memória escravagista, o jogo hegemônico sai fortalecido. A cor presta-se facilmente à tipologia biopolítica, converte-se no traço por excelência da diferença a ser rejeitada. Vem daí o álibi para a naturalização da coincidência histórica entre o continente africano e o tráfico escravagista. Mas vem também daí o imperativo republicano de políticas afirmativas, com vistas a um equilíbrio “racial”. É um paradoxo epistêmico, mas não político. Paul Valéry já o havia pressentido: “Nada mais profundo do que a pele”.

Curiosamente, mesmo sem pruridos éticos, o mercado, que é um mecanismo social mobilizador de informações por meio de preços, consegue manejar esse tipo de conhecimento novo com alguma desenvoltura. O meio universitário é mais lento. Na prática e na teoria, ainda permanece no âmbito do conceito de humanidade em sua modulação europeia. De fato, essa é uma ideia renascentista, consentânea ao momento decisivo da história moderna chamado por Fernand Braudel de “longo século XVI”, quando se intensifica a ação dominadora dos europeus sobre os outros povos numa escala planetária.

Em termos políticos e econômicos, a “humanidade” europeia foi fachada ideológica para a legitimação da pilhagem dos mercados do Sudeste Asiático, dos metais preciosos nas Américas e da mão de obra na África. Esse conceito sustenta o modo como os europeus conhecem a si mesmos: “homens plenamente humanos”, e aos outros como “anthropos”, não tão plenos. Na prática, o Outro ( anthropos ) não teria plenitude racional, logo, seria ontologicamente inferior ao humano euro-americano. É um juízo que abre caminho para a justificação das mais inomináveis violências.

Ainda que reproduzindo esse humanismo fajuto, o ambiente universitário brasileiro sempre pareceu estar “na sua”, sem explicitar verbalmente a memória introjetada da forma social escravagista. Por que os incidentes de agora? É que o ódio como forma social vem estreando no mundo posto em rede, mundo-zero, sem valores nem pudores. Espalha-se como um vírus o fenômeno dos haters , sujeitos autocomplacentes do ódio ao que se configure como “outro”, assim como ao contraditório no debate.

Essa forma irradia-se para atitudes, comportamentos e discursos políticos, relacionados ou não a ideologias extremistas e a fundamentalismos religiosos. Ódio é coisa muito antiga mas, como novidade de fenômeno, parece constituir uma cultura in statu nascendi , à sombra das novas formas de vida. Assistimos à eclosão descontrolada de emoções negativas, antes represadas ou contidas por regras sociais que, segundo tudo indica, estão indo pelo ralo.

A eclosão vem do despreparo, da ignorância pura e simples do universal concreto, que é a diversidade humana. Dentro ou fora dos muros universitários, essa ignorância é racista. Hoje, racismo não é mais apenas segregação, é ódio ou horror ao outro. Esse outro é “raça”. Só que no interior de uma forma social ainda escravagista, o horror não tem a face do inimigo e sim daqueles mais próximos.

* Professor emérito da UFRJ, autor do recente “Pensar nagô” (Editora Vozes)

*Publicado no jornal O Globo em 17/03/2018

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