VIOLÊNCIA CONTRA A POPULAÇÃO DE RUA É DEBATIDA NA CÂMARA

VIOLÊNCIA CONTRA A POPULAÇÃO DE RUA É DEBATIDA NA CÂMARA

As dificuldades enfrentadas diariamente pelas pessoas em situação de rua foram discutidas na Câmara de Salvador, em audiência pública idealizada pelo vereador Marcos Mendes (PSOL). O evento realizado no auditório do Centro de Cultura, nessa sexta-feira (12), teve como tema “Violência e população de rua: Alternativas em favor da segurança pública e social”.

Como forma de dar voz a esta parcela da sociedade, Marcos Mendes disponibilizou desde o início da atividade o microfone para aqueles que sofrem com a vulnerabilidade. “Marielle Franco (vereadora do PSOL assassinada no Rio, em 2018) sempre dizia que ‘nada sobre nós, sem nós’. Então, tudo é dialogado com eles. Nossos projetos de indicação foram construídos coletivamente com eles, porque a violência vem aumentando a cada dia contra esta população de rua”, frisou o vereador, lembrando de caso recente em que três pessoas foram baleadas durante a noite no bairro de Itapuã.

Militante da causa e integrante do Fórum Estadual da População em Situação de Rua, Adauto Leite parabenizou Marcos Mendes pela sensibilidade ao realizar a audiência. Entretanto, lamentou a ausência de outras representações políticas na mesa de debate. “Infelizmente isso mostra o quanto esse tema é desimportante para os poderes públicos”, disse. “A sociedade acha que essas pessoas são violentas, mas desconsidera a violência da sociedade sobre estas mesmas pessoas”, completou.

Parte da sociedade

A atividade foi marcada por relatos fortes, que tiveram a rua como palco de insegurança, preconceito e falta de assistência para aproximadamente 17 mil pessoas. Há um ano morando nas ruas, Derivaldo Matos dos Santos afirmou ser “tratado como um nada” e relatou agressão sofrida de policiais militares no Centro da capital. “Morador de rua nunca é escutado por causa do preconceito”, disse consternado. Joselita da Silva discursou sobre outro tipo de violência, a excludente, que dificulta, inclusive, atendimentos em postos de saúde. “Me olham diferente por não ter uma casa, mas não somos bichos e queremos fazer parte da sociedade”, reivindicou.

Atenta aos relatos, a supervisora do Grupamento de Operações com Cães da Guarda Civil Municipal, Carolina Batista, disse que houve uma diminuição de cerca de 90% nos conflitos envolvendo a corporação e os moradores de rua. Em tempo, orientou que comportamentos de agentes que não estejam de acordo com o previsto pela gestão devem ser denunciados pelo número 156. “A Guarda vem trazendo um novo olhar para esta situação, que é de saúde pública e não de segurança pública”, avaliou Carolina, sobre a ação junto aos usuários de drogas que vivem em situação de vulnerabilidade.

Presente na audiência, a defensora pública Fabiana Miranda destacou o trabalho monitoramento realizado diante dos casos de violência por meio de rondas.

Maria Lúcia, presente!

Em diversos momentos do debate, o grito de “Maria Lúcia, presente!” ecoava no auditório do Centro de Cultura, lembrando a líder da luta em prol da população de rua, que morreu no ano passado. “A única pessoa que não desistiu de mim foi Maria Lúcia, mesmo quando eu tratava ela mal durante a abstinência da droga. Ela abriu as portas para nós”, ressaltou Sheila “Maloka”.

A mesa do evento também contou com a presença de Edson Alexandre, integrante do colegiado do Movimento da População em Situação de Rua, viúvo de Maria Lúcia Pereira. “Quem mora na rua tem dificuldade de dormir num papelão. A sociedade não nos enxerga, por isso temo que um dia sejamos proibidos até de dormir na rua sem que seja dada uma alternativa de vida”, declarou. De acordo com Marcos Mendes, as demandas apresentadas na audiência serão encaminhadas aos órgãos competentes.