FRANKLIN OLIVEIRA: POR UMA RELEITURA DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

FRANKLIN OLIVEIRA: POR UMA RELEITURA DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

As primeiras leituras da Independência datam do Século XIX, durante o pacto que marcou o Segundo Reinado. Na oportunidade, historiadores dariam à Independência um caráter nacionalista, ajudando a construir mitos que passariam a historia como se fossem verdades irretocáveis.  A República conciliou com a Monarquia. O centenário da Independência preocupou-se com o federalismo e os liberais. A historiografia ganharia com os a economia, as classes, raças, e a pretensa cordialidade do brasileiro. Os últimos 50 anos veriam uma profusão de contribuições, dinamizadas com a pós-graduação das universidades. Na ditadura militar acentuou-se a personalidade autoritária de D. Pedro I. A historiografia dividiu-se em duas vertentes, uma renovando a história política tradicional vista a partir do Rio de Janeiro, e outra os acontecimentos provinciais.

A Independência foi lida segundo a ideologia hegemônica de seu tempo. Meus livros observam que a monarquia conseguiu se reciclar graças ao apoio regressista das elites. As de Portugal, apostando na defesa do exclusivo comercial e com golpes que desentronizaram os liberais, e as do Brasil, com uma versão moderada do absolutismo  que eliminava seus concorrentes portugueses e recorrendo a ações político-militares.   A queda dos governos das capitanias em 1821 foi possível através de ampla unidade de conservadores, moderados e liberais. Mas no segundo movimento, o de 1822/1823, prometeu-se a todos interesses mais amplos da sociedade. O programa incluiu um governo dos brasileiros, uma Constituinte, um Congresso Nacional, amplo acesso ao novo mandatário constitucional. Nenhuma palavra sobre a escravidão, o custo de vida, o pagamento regular dos salários ou a autonomia regional.

Sua aplicação dependeria das conveniências dos poderosos. A Assembléia Constituinte seria dissolvida após a evacuação das tropas portuguesas da Bahia. O Congresso só “funcionaria” três anos depois. E a própria Monarquia Constitucional sucumbiria ao tutelamento. O que consumimos hoje é uma leitura da Independência inauguradora do arremedo de nação que aqui se construiu, incapaz de integrar os negros, índios, camponeses, sem terras, sem tetos, e mantém a herança patriarcal sobre as mulheres e a ditadura nas empresas sobre os trabalhadores.

Na contramão observo os interesses subjacentes a Independência, as estratégias militares e o calendário da adesão à separação de Portugal. A “guerra” da Independência é produto do imaginário de gerações posteriores ao conflito. A mitologia da Independência está em questão. Seus fake news construíram o inimigo, as “memoráveis batalhas”, os métodos de fraude, suborno e  golpe, num vale tudo no qual só importou o resultado final.

O LANÇAMENTO DO LIVRO:  29 DE AGOSTO, ÁS 18 HS, NO CINE GLAUBER ROCHA

Franklin Oliveira é historiador e tem Pós-Doutorado em História pela Universidade de Coimbra e Doutorado em História social pela Universidade Federal de Pernambuco