RACISMO, SAÚDE MENTAL, REPRESENTATIVIDADE E RESISTÊNCIA: EMPREENDEDORISMO NEGRO POR ANA PAULA XONGANI

RACISMO, SAÚDE MENTAL, REPRESENTATIVIDADE E RESISTÊNCIA: EMPREENDEDORISMO NEGRO POR ANA PAULA XONGANI

Por: Kamila Silva

Fundadora do Ateliê Xongani, que traz as diversas cores dos países localizados no continente africano e as transforma em estampas como símbolo de resistência, exaltação, autoestima e empoderamento, Ana Paula Xongani fala ao portal Bahia Black sobre a diferença entre o público de São Paulo, cidade onde mora e o da capital baiana.

A criadora e apresentadora participou da mesa de debate sobre a ‘participação das mulheres negras nos movimentos revolucionários e nas lutas de hoje’, promovido pela Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), na última terça-feira (27).

“Visualmente é muito diferente. É muito difícil em São Paulo a gente ocupar lugares. Assim que eu subi no palco eu fiquei olhando, queria registrar aquela imagem [se referindo ao público do teatro Jorge Amado composto majoritariamente por mulheres negras]. É muito difícil em São Paulo a gente ter uma platéia com maioria negra, essa platéia pode ser de cinco, dez ou trezentas pessoas”, ressalta a empreendedora.

E aí traz um lugar de conforto quando a gente tá falando com os nossos. Eu certamente falaria de outro jeito ou outras coisas se eu tivesse vendo outras coisas. O que a gente vê influencia no que a gente fala, né?

Ana Paula ainda pontuou a “deficiência” da região sudeste em comparação ao nordeste quanto ao público que ocupa espaços, além das referências de ancestralidade negra nas ruas.

“Estar em Salvador me traz sempre essa reflexão. Me faz pensar enquanto mulher sudestina, o quanto que a gente é deficiente em muitas coisas, principalmente nessa imagem mesmo”, disse. “Eu lembro na primeira vez que tropecei na estátua de Zumbi dos Palmares, eu desacreditei. Eu conheço uma única estátua em São Paulo que tem a imagem preta”, completou.

“Aqui [Salvador] a gente vê imagem preta o tempo todo, em todo lugar. Eu observei os banners com mulheres pretas representadas, o colorismo estava representado, mulheres escuras, que é outra deficiência que eu sinto e observo sempre. Então aqui eu me sinto num lugar de conforto mesmo, de poder falar com os meus sem reservas, sem melindres”, destacou a ativista.

Questionada sobre como é ser negra retinta, ter cabelo crespo e morar em São Paulo, Ana Paula Xongani faz questão de ressaltar que como mulher negra filha de ativistas, ela sempre teve “consciência do que é ser negra, teve percepções da negritude desde muito nova, o que a fez ter uma experiência e vivência do racismo muito cedo”, causando assim, consequências tanto positivas quanto negativas.

“Por um lado é bom, porque a consciência é um caminho sem volta, a consciência transforma, mas por um lado é ruim, porque eu vivo o racismo há muito tempo. Entendeu? Como eu posso dizer… Eu vivo um racismo consciente há muito tempo, eu elaboro o racismo há muito tempo. O que me faz, apesar de ter 30 anos, estar cansada!”, desabafa.

Como dica as novas e novos empreendedores negros em relação a ganhos financeiros e a saúde mental, Ana Paula incentiva a união entre os mesmos e, principalmente, o cuidado com a saúde mental.

“Nas possibilidades… Começa com terapia gratuita, faz terapia em grupo, faz um coletivo de quatro amigas e paga uma terapeuta só… Me ajuda muito e hoje eu faço terapia psicológica e financeira, porque de fato falar sobre dinheiro é um não lugar pra nós pessoas pretas e a gente precisa decodificar o ganhar grana, sabe? A gente precisa aprender a investir e é um racismo estruturante de uma forma para a gente não aprender a acessar esses lugares”, encerra a empresária.

Foto em destaque: Reprodução/Instagram

Foto corpo do texto: Kamila Silva